28 de Março de 2025, 15h:14 - A | A

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Centro-Oeste vive onda de industrialização impulsionada pelo agronegócio



Uma transformação silenciosa ocorre no Centro-Oeste brasileiro. Em menos de uma década, a região conquistou seu lugar no mapa industrial do país, superando a marca histórica de 5% do valor de transformação industrial (VTI) em 2015 e alcançando 6% em 2022, de acordo com dados do IBGE.

Embora ainda distante do Sudeste, que detém 61% do VTI, o Centro-Oeste é a região que mais cresceu industrialmente no início do século XXI, com um aumento de 173% entre 1996 e 2022.

Esse crescimento é impulsionado pela integração crescente entre o setor agropecuário e a indústria. Projeções da consultoria Tendências indicam que o PIB do Centro-Oeste deve crescer 2,8% até 2025, com destaque para um aumento de 6% no PIB agropecuário. A transformação de recursos naturais em produtos de maior valor agregado tem sido o motor da economia em expansão.

Camila Saito, economista da Tendências, destaca que as indústrias de alimentos, celulose e biocombustíveis têm desempenhado um papel importante e continuam com boas perspectivas. Esses setores representam 70% da produção industrial da região, sendo o processamento de alimentos responsável por 46% – três vezes mais que a média nacional.

A JBS, que nasceu em Anápolis, Goiás, é um exemplo notável desse crescimento. A produtora de carnes movimenta R$ 46 bilhões no Centro-Oeste, o que equivale a 2,4% do PIB regional.

A empresa é um dos maiores impulsionadores da agroindústria na região, com 35 cidades em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e o Distrito Federal fazendo parte da sua operação. “O Centro-Oeste é fundamental para o crescimento sustentável da JBS como um todo”, afirma Renato Costa, presidente da Friboi.

Mato Grosso do Sul também tem se destacado, especialmente no setor de celulose. Desde a inauguração da fábrica da Votorantim (hoje Suzano) em 2009, o estado se tornou líder nacional na produção de celulose, com capacidade para produzir 7,5 milhões de toneladas anuais. Até 2028, investimentos de R$ 75 bilhões devem adicionar 8,9 milhões de toneladas à capacidade produtiva.

O Centro-Oeste também lidera a produção de biocombustíveis. A região passou de 27,5% para 41,5% da produção nacional de etanol entre 2014 e 2023, com Mato Grosso liderando a produção de etanol de milho. A produção de biodiesel também é significativa, representando 40% da produção nacional.

Bruno Serapião, presidente da Atvos, explica que a alta produtividade agrícola e a disponibilidade de terras são fatores cruciais para o sucesso da indústria no Centro-Oeste.

A empresa investe mais de R$ 600 milhões por ano e possui sete das suas oito unidades na região. "O Centro-Oeste tem um ecossistema perfeito para o agronegócio", afirma.

Além dos setores de alimentos, biocombustíveis e celulose, a indústria química, especialmente em Goiás e Mato Grosso, está se destacando, com foco na produção de fertilizantes. No entanto, o Brasil ainda depende fortemente da importação de fertilizantes, com 85% do insumo vindo do exterior.

Para que o crescimento industrial se torne ainda mais robusto, o economista Murilo Pires, do Ipea, destaca a necessidade de integrar melhor os setores de bens de consumo duráveis, não duráveis e de bens de capital.

A expansão industrial no Centro-Oeste reflete a dinâmica das cadeias produtivas globais, com a China e outros mercados absorvendo grande parte das exportações do agronegócio brasileiro. Pires também alerta para o impacto da reforma tributária, que exigirá novos incentivos fiscais e benefícios para atrair mais investimentos.

A industrialização da região também exige uma força de trabalho qualificada. O Observatório Nacional da Indústria prevê a criação de 207 mil novos empregos na agroindústria do Centro-Oeste até 2027.

A crescente demanda por sustentabilidade e segurança sanitária no setor de carnes tem levado a uma maior integração de tecnologia, com a rastreabilidade bovina se tornando obrigatória em 2027.

Como destaca Marcio Guerra, superintendente do Observatório Nacional da Indústria, a agroindústria do Centro-Oeste tem evoluído consideravelmente, especialmente com o uso crescente de tecnologia. "O Centro-Oeste tem mostrado uma capacidade impressionante de transformar obstáculos em oportunidades de crescimento", conclui.